Uma história que começou em Aiello del Friuli, atravessou o oceano em 1924 e, muitas décadas depois, deu nome a uma marca.

Existem histórias que só entendemos muito tempo depois de elas acontecerem. Durante anos, algumas lembranças permanecem simplesmente como parte da nossa vida: um sobrenome, uma fotografia antiga, histórias contadas pela família ou um objeto que atravessa o tempo conosco. Foi somente quando comecei a construir a Dipiazza que percebi o quanto algumas dessas memórias estavam presentes nas escolhas que eu fazia, mesmo sem ter planejado isso desde o início.

A história começa com minha bisavó, Gemma Dipiazza, nascida em Aiello del Friuli, uma pequena cidade no nordeste da Itália. Em 1924, ela deixou seu país e veio para o Brasil, chegando pelo Porto de Santos. Hoje, quando observo os registros daquela época, consigo imaginar com outra dimensão o que significava atravessar um oceano e começar uma vida em um lugar completamente novo. Mas essa é uma percepção adulta. Para mim, durante a infância, ela não era uma personagem de uma história de imigração. Era simplesmente minha bisavó, alguém que eu tive a oportunidade de conhecer.

 

Entre as lembranças que ficaram daquele período existe uma especialmente importante para mim. Quando eu tinha por volta de cinco anos, Gemma me presenteou com um pequeno porta-joias em formato de maçã. Dentro dele, havia pérolas. Era apenas um presente de infância e, durante muitos anos, foi exatamente assim que o enxerguei. Guardei aquele objeto sem imaginar que, décadas depois, ele voltaria a ocupar um lugar tão significativo na minha história.

A relação da minha família com a moda não terminou na geração de Gemma. Sua filha, minha avó Maria, trabalhou durante muitos anos como costureira, e esse universo sempre esteve próximo da nossa família. Crescer cercada por essas referências certamente influenciou algumas das escolhas que eu faria mais tarde, inclusive quando decidi cursar Moda.

Foi durante a faculdade que comecei a perceber com mais clareza o quanto me interessavam não apenas as roupas, mas principalmente aquilo que acontece nos detalhes. Sempre me chamou atenção a forma como um acessório é capaz de transformar um look aparentemente simples, mudar uma proporção ou dar outra intenção à maneira como uma mulher se apresenta. As joias e os acessórios despertavam em mim esse olhar para combinação, acabamento e composição.

Minha trajetória profissional, no entanto, acabou seguindo outra direção. Saí da moda e fui para a comunicação, o marketing e, principalmente, para a construção de marcas. Ao longo dos anos, passei a trabalhar profissionalmente ajudando empresas a pensar posicionamento, identidade, comunicação e presença no mercado. Foi nesse caminho que construí grande parte do repertório que tenho hoje e, de certa maneira, aprendi a observar marcas não apenas pelo que elas vendem, mas pelo universo que são capazes de criar ao redor de seus produtos.

Ainda assim, a vontade de construir algo meu continuou existindo.

Em algum momento, comecei a perceber que queria viver o processo do outro lado da mesa. Não apenas participar da construção das marcas de outras pessoas, mas tomar as decisões de uma empresa que começaria do zero e acompanhar de perto todas as consequências dessas escolhas: definir um produto, criar um posicionamento, desenvolver uma identidade, escolher fornecedores, montar um e-commerce, criar uma experiência de embalagem, investir, errar, ajustar e, principalmente, descobrir como o mercado responderia.

Foi nesse processo que a moda voltou a aparecer.

E, quando comecei a procurar um nome para essa nova marca, percebi que não precisava inventar uma história. Eu já tinha uma.

Dipiazza era o sobrenome de Gemma.

Escolhê-lo não significava transformar a trajetória da minha bisavó em uma narrativa comercial ou tentar fazer da marca uma representação de toda a minha família. Era, para mim, uma forma de carregar uma memória pessoal para dentro de algo que eu estava começando a construir. Uma referência que fazia sentido pela história, mas também pela sonoridade, pela origem e pelo universo que eu imaginava para a marca.

Foi então que aquele porta-joias da infância ganhou outro significado.

As pérolas que estavam guardadas dentro dele passaram a representar algo que eu gostaria de explorar também dentro da Dipiazza. Não necessariamente reproduzindo a imagem tradicional da pérola clássica, mas pensando em como esse elemento pode ser reinterpretado de maneira contemporânea, inserido em peças e composições que façam sentido para a mulher de hoje.

A Dipiazza nasce justamente dessa ideia de olhar para elementos que permanecem e colocá-los em novos contextos. É uma marca de semijoias pensada para diferentes momentos, estilos e ocasiões, com peças que podem ser usadas individualmente, mas que também se transformam quando colocadas em relação umas com as outras. Por isso, desde o início, as Composições Dipiazza fazem parte do projeto: uma maneira de apresentar não apenas o produto, mas possibilidades de uso e de construção de estilo.

As coleções também seguirão essa lógica. Em vez de temporadas que determinam quando algo precisa começar ou terminar, a Dipiazza será construída em Volumes. A cada novo Volume, outras peças entram para o universo da marca. Algumas podem permanecer por muito tempo, tornando-se parte do acervo; outras talvez pertençam apenas a determinado momento dessa história.

Talvez seja justamente essa a parte que mais me interessa agora: a Dipiazza está começando e, portanto, ainda há muita coisa que não sei sobre ela. Ainda vou descobrir quais serão as peças preferidas das clientes, quais combinações vão se tornar características da marca, quais produtos permanecerão por anos e quais caminhos esse projeto ainda poderá tomar.

Mas existe algo que já estava definido muito antes da primeira peça, do primeiro pedido ou da criação do logotipo.

O nome.

Quase um século depois de Gemma deixar Aiello del Friuli e chegar ao Brasil, Dipiazza começa uma nova história. Não como continuação daquela trajetória, porque esta é uma história diferente, mas levando consigo uma pequena parte dela.

E talvez seja isso que algumas memórias façam: permanecem silenciosamente por muitos anos até encontrarem um novo lugar para existir.